Projeto
Uma aula de verdade
Um grupo de alunos fora da sala de aula, produzindo conhecimento, aprendendo e ensinando ética e cidadania é algo diferente do cotidiano de nossa escola pública. Pois isto aconteceu e teve lugar e data para ocorrer. E provou, na prática, a capacidade de nossos jovens. Embora estejam tragados pela enxurrada de motivos em busca da destruição da escola, ainda sabem fazer acontecer e afirmam que sua capacidade pode ser demonstrada se for incentivada e fizer parte de um processo pedagógico sério, firme e engajado de todos aqueles que povoam o ambiente escolar.
O fato que estamos relatando fez parte de uma atividade programada e pensada pelos educadores de uma escola pública de Fortaleza, CE. Uma experiência diferente num quadro ora desalentador, ora desafiador do ensino e de um grupo de educadores que insistem em remar contra a maré de políticas públicas equivocadas e maldosas dos que detêm o poder. A escola tem nome, os alunos têm nome, os professores têm nome. E é talvez esta identidade que prova que a educação ainda tem jeito, apesar do que tem sido feito com educadores, alunos e comunidade.
Uma semana, uma esperança
Bastou uma semana fora da sala de aula para que os alunos provassem que existe um monte de motivos para que tenhamos esperança de que a educação ainda será uma bandeira forte e firme de nossos governantes, motivada pelo clamor popular e pela revolução que sairá das ruas e povoará as estratégias de poder. Nossas escolas têm jeito, nossos jovens têm jeito, nossos professores estão aí à espera de reconhecimento, de respeito, de atitudes, de compromisso político firme e de ações verdadeiras, sem apelos dramáticos do capital em detrimento das reais necessidades de nosso povo.
O momento referido neste depoimento, ou desabafo, fez parte de uma Semana Cultural desenvolvida em uma escola pública de Ensino Fundamental, sem espaço para o desenvolvimento de suas ações, sem material para produção de trabalhos e nem mesmo interesse de nossos gestores em ver o que se passa no ambiente escolar. Temos certeza de que este momento é um divisor de águas no processo educacional destes jovens, pois eles jamais irão esquecer das oportunidades que tiveram em extravasar suas emoções e sentimentos, de produzir conhecimento, de poder desenvolver ideais de participação, liderança, engajamento, atitude e senso artístico. Nossos jovens podem. É preciso apenas dar-lhes oportunidades para fazer acontecer.
Os frutos
São incontáveis os frutos gerados por este momento em que vimos trabalhos práticos, diversão organizada, união, respeito, cidadania, cumplicidade dos educadores e educandos e momentos de vivificação de uma educação engajada. Confirmou a certeza de que os jovens precisam de educação, querem educação e a educação está com eles, bastando apenas um clic, um estalo. Nosso povo precisa acreditar na educação, nossos governantes não têm outra saída para programar políticas sociais eficazes: aplicar firmemente suas horas de governo em ações definitivas que façam com que o povo tenha a educação que merece, com escolas verdadeiras, educadores verdadeiros e estudantes verdadeiros. É hora de destruir a farsa que se esconde em discursos e partir firmemente para uma revolução na educação de um país que precisa investir nesta ação para se tornar grande e forte.
É possível fazer nossos jovens crescerem no conhecimento e na confiança neles mesmos. Basta unir, basta acreditar, bastam políticas públicas honestas e voltadas para o crescimento da nação.
A emoção deste relato se traduz na imagem de jovens que ordeiramente construíram momentos de promoção da cidadania, de fortalecimento da ética e na valorização de nossa diversidade cultural. Em momentos únicos na história de uma escola fica em nossa mente umacerteza: a educação é realmente a solução.
A escola chama-se Monsenhor Linhares. Os jovens voluntariosos são seus alunos e os heróis são seus mestres e mestras que conseguiram traduzir em gestos e emoções a beleza de aprender e construir o conhecimento, em busca de uma sociedade melhor.
Francisco Djacyr Silva de Souza, professor na Faculdade Integrada do Ceará, Fortaleza, CE.
Endereço eletrônico:
francisco.djacyr@terra.com.brArtigo publicado na edição nº 378, jornal Mundo Jovem, julho de 2007, página 5.