O crack denuncia uma sociedade falida

entrevista com Manoel Soares, publicada na edição nº 398, julho de 2009.

Manoel Soares
Manoel Soares Jornalista e integrante da Central Única das Favelas (CUFA). http://www.cufa.org.br

 Para conversar sobre o drama do uso do crack e suas consequências, que atinge principalmente a juventude, convidamos Manoel Soares, jornalista e integrante da Central Única das Favelas (CUFA). Ele e muitos outros lutam para que os jovens tenham outras oportunidades, afastando-os da realidade de consumo de drogas.

  • O consumo cada vez maior de crack é sintoma de que alguma coisa está errada?

    O crack se tornou o calcanhar de Aquiles de uma sociedade falida; uma sociedade que prega o consumo, o prazer, desvaloriza o que é o ser humano na sua mais pura essência. Ela ensinou às pessoas de uma geração que elas não tinham a menor possibilidade de alcançar a transcendência, porque a transcendência era ter. E essas pessoas não tinham. O que elas tinham era pouco e aí lhes surgiu ao alcance das mãos, pelo valor de cinco reais, uma substância que libera do cérebro muita serotonina. É uma combustão inevitável. Essa droga coloca à prova nossas bases sociais. Faz o pai se perguntar: como é que estou tratando o meu filho? A mãe se pergunta: até onde eu estou sendo parceira da minha filha? Porque o crack gera um prazer infinitamente maior do que o corpo humano seria capaz de suportar. Em algumas situações, é mais forte do que o amor que o indivíduo sente pela própria mãe. Daí você pode calcular mais ou menos o que é a força do crack.

  • E é consumido por todas as classes?

    Todo mundo que tiver um buraco no coração está vulnerável ao crack. Na classe média, você tem um bando de playboys, depressivos, que ficam trancados dentro de casa porque o pai quer fazer manutenção de sua riqueza ao invés de dar atenção pro filho. Mas por que este jovem vai fumar crack e não vai usar outras drogas? Por uma questão simples: o crack tira o risco da infecção causada pela heroína e é bem mais forte do que a cocaína. Ele produz um prazer momentâneo muito forte, um prazer muito intenso, e o jovem enlouquece.

  • Podemos dizer que o crack se tornou uma epidemia?

    O crack é uma arma química de distribuição em massa. Aqui no Brasil, hoje, mata como a AIDS matou na África. O crack é uma pandemia. É de longe pior que a febre amarela, a dengue ou a gripe do "porquinho".

  • E gera muito sofrimento?

    Um cara, quando usa crack, se ele mora numa família de seis pessoas, ele fragiliza os mais jovens, manipula os mais velhos, rouba... Ele faz isso por toda a organização em que está envolvido. A característica forte do cara que consome droga é que ele faz com que todo o amor que qualquer pessoa sinta por ele seja usado a favor do seu vício. Eu não sou a favor de ficar demonizando o usuário do crack, fazendo dele uma pessoa derrotada, canalha na sociedade. Mas eu acho que a sociedade tem sido injusta para com aqueles que não consomem crack. Uma mãe, por exemplo, com seis filhos, quando tem um que consome crack, ela presta mais atenção naquele filho que consome do que nos outros cinco que não consomem. Os outros cinco podem não consumir o crack, mas eles migram para outros problemas que vão prejudicá-los. Então acho que a sociedade precisa ser mais madura para essa realidade e começar a falar da prevenção, fundamental e necessária. Sem prevenção, a gente vai para a cova.

  • O que você diria para os jovens?

    Olha, eu já vi pessoas sob efeito de crack espancarem seus irmãos, bebês recém-nascidos, assassinarem a própria mãe... E aí se o cara vira pra mim e fala "eu quero experimentar o crack", a única coisa que eu falo pra ele é: "faz o seguinte, querido, vai na BR e se atira logo na frente dum ônibus, que ao menos você se mata e não faz ninguém sofrer". O jovem que, com todas as informações que estão na rua, ainda assim se sente inclinado a experimentar o crack, não tem consciência. O que não serviu pra cocaína, virou crack. Então, não vou usar crack porque eu não sou lata de lixo. Só que o que a sociedade precisa entender é que por detrás da decisão desse jovem de fumar crack existe a responsabilidade também de cada um de nós.

  • Qual é, então, a motivação do jovem para entrar nesse universo?

    Qualquer coisa que não realiza a pessoa, que não dá o que você precisa, incentiva a entrar na droga. O jovem acha que pode andar a 250 km por hora no carro, acha que é indestrutível. E esse sentimento é que faz dele um ser tão suicida. O que faz o jovem achar que ele é mais forte do que o crack é esse sentimento natural da juventude. Só que esse sentimento da juventude é neurológico, fisiológico. A juventude sempre correu atrás de perigos mortais, seja através de bungee jump, seja através do sexo sem camisinha, todo mundo tenta alguma coisa perigosa. Só que no caso do crack, ele é realmente mortal. Vicia oito vezes mais do que a cocaína. Não tem volta. Essa geração está pagando o preço de algo que se usa e vai continuar pagando se não pisar no freio e se recondicionar a ponto de conter essa hemorragia social.

  • E os efeitos no corpo?

    O crack, na sua constituição, é um ácido sulfúrico. Fumando, derrama tudo no seu sistema respiratório. O crack derrete toda a mucosa, depois começa a derreter os neurônios do lóbulo central, e o que sobra dos neurônios passa a trabalhar a favor do vício. Por isso ele é tão definitivo. Alguns acham que resistiriam a uma provada de crack. E por achar isso é que usaram. Não sei se eu e você resistiríamos.

  • O crack está espalhado em todo mundo?

    Infelizmente, sim. O crack é um problema mundial. As periferias africanas consomem o crack. Os Estados Unidos consomem o crack, e de lá vem o seu nome. O mundo todo sofre com o crack há muito tempo. A questão toda é que o povo sofre em silêncio.

  • E o que dá para fazer?

    O crack é a chance de a humanidade voltar a olhar para seus valores, a chance de as pessoas voltarem a se olhar no espelho e dizer "e daí, velho, como é que eu estou criando o meu filho, como é que estou tratando minha família? Será que estou construindo uma base espiritual, psicológica, emocional pra toda minha família? Ou será que eu estou vivendo um dia após outro dia?". Não sou contra a lógica de consumo, sou contra a lógica de consumo desenfreado. Eu sou contra o pai que não consegue fazer o dever de casa com o filho e dá uma calculadora pra ele, porque não vai conseguir ter tempo de ensinar ele a dividir. Eu sou contra uma mãe que não conseguiu horário para o seu filho e dá um videogame para ele. Nós estamos industrializando nossas relações humanas. Nós podemos mascarar as necessidades de relações humanas, mas nós não as substituímos. Tem um momento em que o coração chora, suplica. Mas como ele está acostumado a industrializar as suas sensações, ele pode industrializar suas sensações através do crack. São meninos, são meninas, é uma geração que não conheceu o amor verdadeiro de pai, de mãe. Porque se tivessem conhecido o amor verdadeiro de pai e de mãe, no momento cirúrgico do consumo, no momento em que iriam colocar a droga na boca, acender o isqueiro, essa voz, chamada consciência, iria falar mais alto e eles iriam soltar o cachimbo. Talvez seja isso que tenha feito com que eu e você não tenhamos fumado crack.

  • E o que fazem as autoridades diante do problema?

    Há oito anos, quando nós saímos dizendo que o crack estava chegando, onde as pessoas estavam? Estavam tentando salvar baleias. Nada contra as baleias, só que assim eles inverteram as prioridades. É como as dez pragas do Egito. O faraó só se tocou da desgraça quando começaram a morrer os primogênitos. Os faraós de hoje também parecem esperar a morte de seus primogênitos. O investimento público brasileiro para a questão das drogas sempre foi pequeno. Deveria tratar o crack como arma química. A questão toda é que nós ainda discutimos o crack como quem discute a maconha. A gente vê nas comunidades os jovens fortemente viciados. O jovem acha que ele nunca vai morrer. Então ele acha que é mais forte do que o crack. O narcotráfico usa o jovem porque ali é uma reação em cadeia.

  • Diante dessa tragédia, é possível ainda ter esperança?

    O crack decepa o nosso conceito social. O próprio tráfico de drogas, o próprio crime organizado tem medo do crack. A família, nesta situação, ou abre mão do usuário ou usa o crack junto com ele. Por enquanto, está sobrando esta opção. Poucos são os casos de famílias que conseguem recuperar. Eu, particularmente, recomendo que nunca desistam, mesmo que o quadro não seja esperançoso. Para mim o indivíduo que brota depois do crack não é um membro da família, é um monstro que estava preso e saiu... Se o seu irmão dá um tiro na cabeça da sua mãe, o sentimento que você tinha por ele, de irmão, se esvai nessa hora, porque ele quebrou um valor primordial para você. É esta a lógica com o crack. O familiar não pode ser refém do crack. Ele tem que levar a sério porque é uma batalha eterna entre o certo e o errado. O que eu recomendo para uma família, que tem usuário de crack, é que evite que a mãe gerencie a situação, porque ele usa o amor dela contra ela. O ideal é que algum membro assuma a rédea com firmeza e trate o usuário não como um parente, mas como um dependente químico que precisa de ajuda. O efeito do crack é liberar a serotonina do cérebro, de forma artificial e exagerada. Mas você tem como liberar serotonina correndo, comendo, tocando violão... Você não precisa do crack para fazer isso. Seja forte. Vai tocar o barco. A única coisa que você não pode fazer hoje é responsabilizar a sociedade pelos seus atos.

O caminho da superação

Trabalhamos a prevenção em forma de palestras, nas escolas, porque nós acreditamos que a palavra viva é muito importante. Geralmente não trabalhamos com ex-dependentes porque eles podem transmitir uma mensagem complicada, como se o cara pudesse ser consumidor e daqui a pouco se recuperar e ainda virar palestrante. Nós queremos mostrar que pessoas podem entender do tema sem nunca ter colocado a mão. Paralelo a isso também, nós levamos a exposição de fotos e nessas fotos tem um texto narrativo explicando o seu conteúdo. Levamos também o documentário "Falcão, meninos do tráfico", uma realização da CUFA, com o rapper MV Bill.

Eu não digo que o jovem fique imune, mas ele fica mais consciente das abordagens do traficante porque, no fim das contas, o que nós tentamos fazer em nossas intervenções não é fazer uma lavagem cerebral na cabeça do jovem, mas estar no coração dele no momento da decisão. Haverá um momento onde o indivíduo vai dizer: vou ou não fumar. Então, nesse momento, nós entramos. Não que nós sejamos a tábua de salvação, mas é porque em todo o país nós assumimos o compromisso pessoal de trabalhar de corpo e alma para tentar resolver esse problema. Temos hoje uma abrangência mundial: estamos em 12 países e nos 27 estados brasileiros.

Comunicamo-nos com mais de meio milhão de jovens de forma direta, e com mais de 12 milhões de jovens de forma indireta. E, apesar de as pessoas dizerem "ah, que legal isso que vocês fazem", para nós isso ainda não significa nada, porque tem muita coisa ainda a ser feita.
 

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