É hora de ouvir a voz do jovem

entrevista com Leonardo de Castro, publicada na edição nº 374, março de 2007.

Leonardo de Castro
Leonardo de Castro Pinheiro assessor de políticas públicas da Organização dos Estados Ibero-americanos - OEI, um dos coordenadores da pesquisa.

Se a juventude é a faixa etária com maior número de brasileiros, se são os jovens que vão herdar as consequências de tudo o que se faz hoje, parece indiscutível que estejam presentes em todas as instâncias decisórias da vida do povo.

É isto o que acontece? Não há alguma coisa errada na organização de nossa sociedade? A pesquisa Juventude, juventudes: o que une e o que separa escutou jovens em todo país. Um dos coordenadores da pesquisa nos ajuda a fazer algumas interpretações.

 

  • Qual é o perfil do jovem brasileiro, hoje?

    O jovem brasileiro é uma pessoa sem emprego, muito propenso a sofrer violência, especialmente nos grandes centros urbanos, a ser agente ou vítima da violência. É um jovem que não recebe uma formação adequada no ensino formal. É um jovem que tem dificuldades para entrar no mercado de trabalho e para acessar o Ensino Superior e está em situação de vulnerabilidade. Para que realize o trânsito entre deixar de ser criança e tornar-se um adulto produtivo na sociedade, ele enfrenta muitas dificuldades.

  • Que mundo e que futuro este jovem vai construir?

    O jovem sempre recebeu essa carga de ser o futuro do país. É uma carga pesada, porque o mais importante é trabalhar o presente e não só ficar jogando os planos para o futuro. O jovem tem um desafio duplo que é superar todas as vulnerabilidades sociais que enfrenta hoje e ainda ser o motor do desenvolvimento futuro do nosso país. Vivemos um momento no qual, demograficamente, existem mais jovens do que qualquer outra faixa etária na população brasileira. E nesta faixa etária, dos 15 aos 29 anos, temos jovens inativos e jovens economicamente ativos, que trabalham e contribuem com a poupança interna do país. Se forem dadas as garantias de educação e emprego, eles podem criar bases para o desenvolvimento do país e, inclusive, para a nossa Previdência Social. Se todos os jovens se tornarem economicamente ativos, será uma garantia de que a Previdência não vai "quebrar", porque teremos mais gente contribuindo do que recebendo. Mas como eles estão bastante fora do mercado de trabalho, não estão contribuindo plenamente. Este potencial, infelizmente, ainda não está sendo realizado.

  • Há pessoas que veem o jovem com certo preconceito, considerando-o indiferente, passivo... Há razões para isso?

    É curioso, porque, ao mesmo tempo em que o jovem tem esse conceito negativo (em que ele é estigmatizado como violento e vadio), a juventude é perseguida por todos, principalmente nesta era em que a gente vive. Todo mundo quer ser jovem, bonito, fazer plástica. Tem-se a ideia de que ser jovem é ser saudável, inovador, conhecer o novo, saber lidar com as novas tecnologias. Tem alguma coisa errada aí. Se, por um lado, a juventude é tão boa e, por outro, tão ruim, o que falta realmente é uma sensibilização, até da própria mídia. O jovem deve ser o que ele realmente é, e não uma projeção de tudo o que é bom ou de tudo o que é ruim na sociedade brasileira.

  • O diálogo entre as gerações, a partir da realidade que temos, não é também um ponto que pode contribuir?

    O diálogo é um componente fundamental para o desenvolvimento do país. Abrir o diálogo intergeracional, permitir que o jovem possa ser escutado. Muitas vezes não é o jovem que não quer ouvir, mas ninguém quer escutá-lo porque acham que ele não sabe nada. Daí a necessidade de abrir um espaço para que a juventude possa expressar suas ideias e que possa também ouvir e debater. Não só escutar as coisas como se fossem dogmas, mas que possa se posicionar. Já existem algumas iniciativas, como o Plano Nacional da Juventude. É um espaço que foi aberto para o diálogo intergeracional. Ao mesmo tempo em que se tinha ali o Congresso Nacional, tinha também um grupo de jovens debatendo junto com deputados e senadores quais seriam as metas, os programas, os projetos para a juventude brasileira para os próximos dez anos. Considero esta uma experiência de diálogo bem-sucedida, mas deveriam existir muitas outras.

  • A escola poderia ou deveria ter uma participação nessa organização da juventude, através de debates ou mostrando alternativas?

    A escola é uma instituição fundamental para a formação de valores, enquanto cidadãos. Infelizmente nós vemos um descolamento da escola com a questão da cidadania. Ela prepara o jovem para passar de ano ou para o vestibular, mas não o prepara para a vida. Então existe uma distância entre o que é a escola hoje e o que é uma educação abrangente, para a cidadania. Reformar a escola não é uma tarefa simples, mas existem formas de fazer isto. O primeiro passo seria a reestruturação dos ambientes físicos, porque existem muitas escolas cujo ambiente está decadente, sem equipamentos. E falta valorização da carreira de professor. Hoje em dia são poucas as pessoas que cursam o Ensino Superior para serem professores por vocação. Geralmente trabalham como professor como última alternativa. E é necessário que volte aquele orgulho de ser professor, ser um mestre e assim ensinar bem aos seus alunos. Além disso, um grande problema das escolas brasileiras é a violência. A violência atrapalha diretamente o ensino. As escolas brasileiras sofrem muito com esta situação e isto influencia na qualidade da educação. Então, reformar a escola pressupõe qualidade de educação, valorização da carreira do professor e integração entre a cultura do jovem para a cidadania e a cultura escolar.

  • E o jovem também tem parcela de responsabilidade nisso?

    O jovem deve ser um ator, protagonista desta mudança. Deve colocar dentro da escola estes componentes que são da sua cultura, que é a facilidade de lidar com o novo, com as novas tecnologias, de estar mais aberto para as mudanças. Isso ele pode levar para a escola e a escola deve se preparar para receber, para dialogar com ele.

  • Até que ponto as instabilidades familiares afetam o jovem?

    Aí que entra o desafio das políticas públicas. A política nasce para resolver um problema social. Se você tem uma sociedade onde a família está desestruturada, onde a escola não está bem preparada e o jovem está desencantado, a responsabilidade de promover as mudanças é do governo. O governo tem que promover políticas educacionais, sociais, de proteção, para que se quebre o círculo vicioso de exclusão, de estigmatização do jovem.

  • Enquanto há exclusão, a participação de todos os jovens não fica comprometida?

    A sociedade atual é muito fragmentada e a exclusão social que se impõe aos mais pobres no Brasil é cruel. Os jovens são muito diferentes entre si. Por isso é preciso falar em juventudes. O trânsito de criança para a idade adulta acontece de forma diferente entre as parcelas da população brasileira. Se por um lado os jovens rurais estão abandonando a escola, entrando no mercado de trabalho mais cedo, por outro lado, os das classes médias altas estão abandonando o lar mais tarde. Hoje é comum ver pessoas com mais de 30 anos ainda no domicílio dos pais, chegando a fazer até dois, três cursos superiores antes de entrar no primeiro emprego. Na zona rural, o jovem de 12 ou 13 anos já está trabalhando e a escola já não é mais uma perspectiva para ele. A falta de referência é da própria sociedade, organizada de uma forma em que os mais pobres estão excluídos e os mais ricos têm a chance de estudar e ficar durante bem mais tempo na casa dos pais. Assim não sofrem pressão para terem uma autonomia.

  • O consumismo e o individualismo também afetam a vida do jovem?

    Mais uma vez eu gostaria de enfatizar que hoje temos que falar em juventudes, no plural. Porque realmente a individualidade é uma marca dos jovens. Existem poucos espaços de cooperação e de cultura cívica. Pelo ambiente competitivo da sociedade, que impõe que você seja o melhor em tudo, que tenha muitos cursos e isto aliado ao consumismo, no qual o valor é dado não por aquilo que você é, mas por aquilo que você tem, a sociedade simplifica as pessoas desta forma. Então o jovem se torna um individualista. E essa é uma mudança cultural que está ocorrendo no mundo todo por causa da globalização, que impõe padrões de consumo que são irreais para a realidade brasileira. Você vê nos filmes norte-americanos, nas séries da TV, um modo de vida que não é compatível para toda a população do planeta, pois não existem recursos naturais que consigam dar conta deste nível de consumismo.

O jovem quer participar

Juventude, juventudes: o que une e o que separa. Este é o título de uma vasta pesquisa, realizada pela Unesco, sobre a realidade da juventude brasileira. É uma radiografia dos 49 milhões de jovens brasileiros, de 15 a 29 anos. O estudo aborda temas como educação, trabalho, emprego, renda, esporte, lazer, cultura, saúde, sexualidade, enfim, retrata a cara dos jovens.

A pesquisa completa está disponível no site da Unesco (www.unesco.org.br) ou diretamente no endereço www.unesco.org.br/publicacoes/livros/juventudesjuventude/mostra_documento

Apresentamos a seguir alguns destaques sobre a participação dos jovens:

• A pesquisa apurou que 27,3% dos jovens brasileiros participam ou já participaram de alguma organização social, o que representa em termos absolutos aproximadamente 13 milhões de jovens.

• Sobre os tipos de associação à qual pertencem, verifica-se que 81,1% envolvem-se ou envolveram-se em associações de caráter religioso; 23,6% em associações do tipo organizacional (esportiva, ecológica, cultural, artística e assistencial); 18,7% de caráter corporativo (trabalhista, estudantil); e 3,3% em organizações partidárias.

• Revela-se que existe uma grande parcela da juventude disposta a participar ativamente da vida política.

• Embora 63% dos jovens considerem que o jovem de hoje não se preocupa com a política, apurou-se que 72% da população jovem afirmavam ter algum interesse nas eleições municipais de outubro de 2004.

• Um dado importante a se enfatizar é que 62,5% dos jovens concordam que a democracia ainda é o regime político preferencial, ao passo que para 30,1% dos jovens “em algumas circunstâncias um regime autoritário pode ser preferível a um sistema democrático”.

Porém é importante notar que existe uma forte descrença entre os jovens em relação às instituições políticas tradicionais. Sobre a confiança nas instituições políticas, verifica-se que 84,6% dos jovens declararam não confiar nos partidos políticos; 76,7% afirmaram não confiar no Congresso Nacional; e 79,9% não confiam nas Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores.

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