A escola e a preparação para o trabalho

entrevista com Maria Carla Corrochano, publicada na edição nº 376, maio de 2007.

Maria Carla Corrochano
Maria Carla Corrochano Assessora do Programa Juventude, da ONG Ação Educativa.

Os jovens têm vivido a crise do mercado de trabalho de modo dramático: além de mais atingidos pelos índices de desemprego, parte considerável dos jovens são mais fortemente sujeitos a empregos onde predominam baixos salários, longas jornadas e péssimas condições de trabalho.

Sobre este contexto e o papel da escola na preparação para o trabalho conversamos com Maria Carla Corrochano.

  • Preparar para o mercado de trabalho é uma finalidade da escola?

    O artigo 205 de nossa Constituição responde de maneira muito clara: "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". Assim, a escola tem como um de seus deveres a preparação para o trabalho. Ocorre que é muito comum percebermos crianças, jovens e adultos em uma sala de aula apenas como estudantes. Especialmente em relação às crianças e adolescentes até os 16 anos sabe-se que, na verdade, seu lugar não é no trabalho, mas na escola, conforme a Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Entretanto quando consideramos a realidade brasileira, muitas dessas crianças e adolescentes começam a trabalhar desde muito cedo. Assim, a escola tanto tem como tarefa a preparação para um trabalho futuro, como também a reflexão e debate em torno da própria situação presente de seus alunos. Muitos deles já estão hoje, no presente, inseridos no mercado de trabalho, tendo começado inclusive antes da idade permitida por lei. Não é apenas para o futuro que a escola deve olhar, é preciso contemplar a situação presente dos alunos em relação ao trabalho. O que fazem quando não estão na escola? Eles trabalham? Em qual trabalho? Procuram emprego?

  • A escola está atenta à realidade e à vida dos jovens?

    Penso que, apesar dos vários esforços que vêm sendo realizados por uma ou outra escola, um ou outro professor, pesquisas recentes têm apontado que ainda predomina um certo distanciamento da escola em relação à vida dos jovens. Em geral os jovens são percebidos e considerados apenas em sua condição de estudantes. Mas não podemos esquecer que, além de alunos, são também jovens, moças e rapazes de diferentes classes e raças, trabalhadores ou desejosos de um trabalho e possivelmente também podem estar envolvidos em diferentes grupos e movimentos ligados à religião, à música, ao meio ambiente etc. Algumas escolas tentam aproximar-se da realidade desses alunos por meio da implementação de projetos que geralmente repercutem pouco no cotidiano da sala de aula. Ou seja, muitas escolas até realizam projetos diferenciados nas escolas, em horários alternativos ou nos horários de intervalo das aulas, mas as aulas dos professores permanecem as mesmas e muitos jovens têm reclamado da grande distância entre suas vidas e os conteúdos aprendidos na esfera escolar.

  • E o ensino superior inclui mais jovens no trabalho?

    Acho mais importante aqui um questionamento sobre a porcentagem de jovens que consegue atingir o Ensino Superior. Todos sabemos que é muito pequena. Dos 39.869.954 jovens brasileiros de 18 a 29 anos, apenas 3.768.950, ou seja, 9% estavam matriculados no Ensino Superior, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD-2005). Assim, a grande maioria dos jovens no Brasil sequer chega a esse nível de ensino. Hoje em dia, para muitos jovens, fundamentalmente de mais baixa renda, completar o Ensino Médio já representa uma grande vitória. Programas como o ProUni do Governo Federal têm contribuído para ampliar o acesso de jovens de mais baixa renda ao Ensino Superior, mas ainda apresenta muitos limites, dado que observou-se uma sobra de 43% das vagas oferecidas pelo programa, segundo dados do INEP.

  • Como as escolas podem acompanhar as mudanças no mercado de trabalho?

    Antes de responder a essa questão, vale interrogar se a escola deve mesmo acompanhar as mudanças no mundo do trabalho. Trata-se de uma questão bastante controversa. Há autores que defendem claramente que não e outros que sim. Além disso, é preciso questionar: tudo muda? E as mudanças não atingem do mesmo modo diferentes regiões, setores e perfis de trabalhadores. Além disso, nem tudo é mudança. Há muitas permanências no mundo do trabalho. A tarefa primordial da escola é responder ao seu projeto pedagógico. Nesse sentido, o próprio projeto pode e deve incorporar questões relativas às mudanças, mas também às inúmeras permanências observadas no mundo do trabalho. Quanto ao como, penso que um passo importante pode ser conhecer a própria realidade de trabalho dos alunos e/ou de seus pais. Certamente eles terão muito a informar sobre essa temática. Mas não podemos atribuir apenas à escola a responsabilidade pelo diálogo com o mundo do trabalho. Seriam necessárias políticas e programas específicos que contribuíssem para a aproximação entre a escola e o mundo do trabalho. Além disso, as próprias empresas deveriam assumir mais fortemente essa responsabilidade.

  • Como e onde qualificar-se para o mercado de trabalho?

    Há inúmeras maneiras de qualificar-se para o mercado de trabalho e atualmente um dos discursos mais correntes é que a obtenção de uma vaga no mercado de trabalho depende de qualificação. Assim, não são poucos os jovens e adultos que procuram diferentes alternativas para qualificar-se. Também são inúmeros e muito diversos os cursos oferecidos por programas de governo, empresas e ONGs. Essa tendência que foi fortalecida nos anos 90 vem sendo fortemente questionada. É inegável que um maior número de estudos e cursos realizados podem contribuir, mas sozinhos não conseguem garantir uma vaga no mercado de trabalho atualmente. Esta é uma questão a ser enfatizada. Muitos indivíduos acabam sentindo-se culpados por não conseguirem uma vaga no mercado de trabalho: "Não consegui porque não me qualifiquei". No entanto não são poucas as pesquisas que têm enfatizado vários outros fatores que entram em jogo no momento de obter uma vaga: o sexo, a tal da aparência, o local de moradia, as redes de relações, o conhecido quem indica, dentre outras. Além disso, é evidente que o país precisa crescer economicamente, crescer tendo como elemento central a geração de trabalho e renda. O final da década de 90 marcou uma difícil transição, onde o desemprego e a luta pelo acesso ao trabalho e à renda passaram a ser características centrais de uma sociedade marcada não mais pelo incessante crescimento da economia e das oportunidades de emprego. A carteira de trabalho passa a ser um sonho, objeto de desejo e de veneração. Agora, é o chamado mercado informal que dá as cartas. E o chamado trabalho informal que predomina, trabalho incerto e inseguro, trabalho literalmente temporário, na ampla maioria dos casos. Não é ainda o fim dos empregos, mas é o tempo do desemprego como epidemia social e econômica. Assim, é preciso ir muito mais além do debate em torno de como e onde qualificar-se.

  • Sobre as diferentes profissões e o status de cada uma (pedreiro e engenheiro, por exemplo). Como a escola pode ajudar a equilibrar, a valorizar as diferentes profissões?

    Eu começaria perguntando: por que valorizamos mais o engenheiro? Em um país onde a escravidão foi a forma de trabalho dominante até o final do século 19 vivemos por muito tempo a desvalorização e a associação direta do trabalho do corpo e das mãos ao regime escravagista, demarcando a rejeição do trabalho por parte das elites coloniais (e também das pós-coloniais, até os dias atuais). Tal herança é ainda evidente, como mostram a quase absoluta ausência do mundo do trabalho nas típicas telenovelas brasileiras, ou a infalível presença de atrizes negras como eternas empregadas domésticas. Ou ainda, para tomarmos a sociedade como um todo e não só os símbolos dos meios de comunicação em particular, como indica a persistente condição dos trabalhadores negros enquanto aqueles de pior inserção e maior vulnerabilidade na precária esfera do trabalho à brasileira. Basta um rápido olhar para as condições de trabalho e salário de um engenheiro e de um pedreiro para compreendermos por que uma profissão acaba sendo mais valorizada que a outra. Ao meu ver, a escola deveria levar os alunos a compreenderem as inúmeras razões que estão por detrás da desvalorização de algumas profissões em detrimento de outras.

Um novo mundo do trabalho?

Quando falamos em preparação para o mercado de trabalho, do que estamos falando? Eu ampliaria o conceito de trabalho. Entendo o trabalho como a transformação da natureza em produtos ou serviços, portanto em elementos de cultura. O trabalho é, desse modo, o esforço realizado, e também a capacidade de reflexão, criação e coordenação. Ao longo da história, o trabalho assumiu múltiplas formas. No mundo capitalista o trabalho assumiu uma forma muito específica: o emprego assalariado. Para que os trabalhadores fossem convencidos a vender seu trabalho em troca de salário, foi preciso destruir formas autônomas de sobrevivência, criar leis obrigando pessoas livres a trabalhar, reprimir todos aqueles vistos pela elite dominante como vagabundos e indignos. Só no fim do século 19 começam a ser legalizados os sindicatos e esboçadas as primeiras leis em defesa dos trabalhadores. Vale ressaltar que, em determinados grupos sociais, o trabalho pode fazer parte do processo de socialização das crianças, como em sociedades tribais, por exemplo.

Em nossa sociedade, ele está associado mais fortemente à sobrevivência. Mas o conceito de trabalho vai além do seu formato como emprego assalariado, embora nossa tendência seja associá-los. Um exemplo pode ajudar aqui: as mulheres que cuidam de suas casas e filhos estão trabalhando? Evidentemente. Mas estão empregadas? Na grande maioria, não! São poucos os países que reconhecem os direitos das mulheres que trabalham no próprio lar! Caminhando nesse sentido, poderíamos imaginar vários outros tipos de trabalho que vão muito além do emprego, tais como o trabalho cooperativo, o trabalho por conta própria etc. Assim, de antemão parece importante ampliar o conceito de trabalho para além do trabalho assalariado. De todo modo, o mercado de trabalho assalariado está atravessando uma de suas maiores crises e vem se transformando ao longo dos últimos anos. No Brasil, é especialmente a partir dos anos 1990 que observamos um aumento dos índices de desemprego e uma intensa precarização do mercado de trabalho. No interior dos espaços de trabalho é inegável reconhecer algumas mudanças: ampliam-se ofertas de trabalho que exigem novas competências em uma sociedade do conhecimento.

As transformações ocorrem geralmente nas empresas de grande porte, nas atividades econômicas mais dinâmicas, mas o momento é ainda de convivência, entre o tradicional e o inovador, entre o trabalho convencional e o trabalho dos símbolos, entre os tempos de suor e graxa e uma nova era do conhecimento, que não chegou aos quatro cantos do planeta. Até em um mesmo espaço de trabalho não é difícil encontrar situações de convivência de um trabalho altamente qualificado ao lado de um trabalho precário e degradado, sendo labor, cansaço e penosidade.

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