Essas que se embrenharam mata adentro e
se negaram aos colonizadores
E as que colaboraram e casaram com eles,
Essas que se embarcaram ainda crianças
E as que ultrapassaram os limites da chegada,
Essas que levaram chibatadas e marcas de ferro quente
E as que se revoltaram e fundaram quilombos,
Essas que vieram embaladas por sonhos
E as que atravessaram nos porões da escuridão,
Essas que geraram filhas filhos,
E as que nunca pariram,
Essas que acenderam todas as espécies de velas
E as que arderam nas fogueiras,
Essas que lutaram com armas
E as que combateram sem elas
Essas que cantaram, dançaram, pintaram e bordaram
E as que criaram empecilhos,
Essas que escreveram e traduziram seus sentimentos
E as que nem mesmo assinavam o nome
Essas que chamaram por conhecimentos e escolas
E as que derrubaram os muros com os dedos,
Essas que trabalharam nos escritórios e fábricas
E as que empunharam as enxadas no campo,
Essas que ocuparam ruas e praças
E as que ficaram em casa,
Essas que quiseram se tornar cidadãs,
E as que imaginaram todas votando,
Essas que assumiram os lugares até então proibidos
E as que elegeram outras,
Essas que cuidaram e trataram dos diferentes males
E as que adoeceram por eles,
Essas que alimentaram e aplacaram os vários tipos de fome
E aquelas que arrumaram a mesa,
Essas que atenderam, datilografaram e secretariaram
E aquelas que lavaram e passaram sem conseguir atenção,
Essas que doutoraram e ensinaram
E as que aprenderam com a vida,
Essas que nadaram, correram e pularam
E as que sustentaram a partida,
Essas que não se comportaram bem e amaram de todas as maneiras
E as que fizeram sem pedir licença
Essas que desafinaram o coro do destino
E as que com isso abriram alas e asas,
Essas que ficaram de fora
E aquelas que ainda virão,
Essas e tantas outras que existiram dentro da gente
E as que viveram por nós.
Fonte: Publicado no Dicionário Mulheres do Brasil