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O direito humano de viver

     Para que organizar uma sociedade, formar um estado, ser um país, se os seus cidadãos não têm garantido nem o direito básico de viver? O estado tem obrigação de assegurar, a todos os seus membros, direitos fundamentais como trabalho digno, casa, alimento, terra, água, informação, saúde e participação política. Na realidade atual, apesar dos avanços, estes direitos humanos fundamentais são negados à grande parcela de brasileiros que não tem acesso a bens essenciais da vida.

     A maioria das pessoas enfrenta uma vida cheia de ameaças: desemprego, violência, pobreza, desestruturação familiar... E pressente um futuro incerto. Muitas vidas são interrompidas por incompetências, negligências e omissões. E a interrupção da vida antes da hora é sempre uma injustiça que afeta a dignidade humana. O escritor João Cabral de Melo Neto contava o drama da “vida severina”, interrompida “de emboscada antes dos 20, de velhice antes dos 30, de fome um pouco por dia”.

     Este é um problema fundamental, porque enquanto a exclusão social não for vista como um desafio emergencial, não se fará o necessário para criar uma sociedade inclusiva, onde caibam todos. A insensibilidade diante do sofrimento dos pobres revela uma crise espiritual e ética. Vivemos em um mundo desumano, como desumana é a condição em que sobrevivem as pessoas excluídas e como desumana também é a postura dos que são insensíveis e até mesmo agressivos com essas pessoas. Diminuir a insensibilidade social e construir uma sociedade inclusiva deve ser uma atitude básica de todas as religiões no mundo de hoje.

O caminho da utopia e da fé

     Uma lição importante que aprendemos da biologia moderna é que a vida constitui essencialmente um projeto; é um movimento rumo ao futuro. Os indivíduos ou sociedades que perdem o interesse pela sua projeção no amanhã já se encontram no caminho da morte. “O que distingue o ser humano de outros bichos é o projeto. Se não houver utopia, não há ser humano”, disse o pensador Milton Santos (Zero Hora, 10 de abril de 1996).

     O Deus bíblico é o Deus da fé. Ele orienta o seu povo no caminho da esperança, apesar das dificuldades. O caminho de Deus se define como partida, saída, movimento, êxodo... Abraão tem que deixar a sua casa, sair de sua terra para aventurar-se por um país estrangeiro e desconhecido (Gn 12, 1-9). A história de Abraão está diretamente ligada à história de toda a humanidade. Com ele começa a surgir o embrião de um povo que terá a missão de trazer a bênção de Deus para todas as nações da terra.

     O caminho da fé é sempre situado na história dentro da complexidade e dos conflitos humanos. O que Deus promete a Abraão é tudo aquilo que um nômade de seu tempo desejava: terra para os rebanhos e filhos para cuidar deles. Em outras palavras, o que Deus promete é exatamente aquilo que o ser humano aspira para responder às suas necessidades vitais.

Ter demais ou ter de menos

     Hoje, a necessidade de uma melhor distribuição de renda baseia-se na questão óbvia de que existem pessoas que têm demais ou mais do que precisam, enquanto existem muitos que não têm o necessário para viver dignamente. No entanto a questão torna-se mais complicada quando buscamos um critério para dizer que alguém tem de mais e que outro tem muito pouco. Para o teólogo Jung Mo Sung, essa dificuldade aumenta na medida em que não se faz uma distinção entre necessidades e desejos humanos. Para Jung, os desejos são sempre infinitos e nunca serão satisfeitos por completo. Mas a sua realização não significa uma questão de vida ou morte. Já as necessidades, quando não satisfeitas, impossibilitam a vida humana.

     Diante de uma sociedade que propõe a satisfação do desejo de alguns e a morte de muitos, defender a vida é caminhar na contramão de tudo que nos diminui como seres humanos. Andar na contramão é construir um estilo de vida diferente dos modelos que o mercado impõe. É abandonar a idéia de que nos tornamos mais humanos à medida que adquirimos as mercadorias desejadas. É preciso fazer despertar para a solidariedade como condição de resgate da dignidade humana.

     A solidariedade, porém, não pode ser assumida apenas como uma atitude eventual, em alguma campanha do agasalho, por exemplo, mas como princípio estruturador de toda a vida pessoal, que possibilita alguém interiorizar as necessidades dos outros como algo essencial para si mesmo(a). Dizia Mahatma Gandhi: “Lembre-se das pessoas mais pobres que você conhece, dos seres que você já viu mais abandonados. Pergunte se o ato que você planeja ou o seu modo de viver é de algum modo proveitoso para essas pessoas. Se for, através destes atos, você encontrará Deus”.

Questões para debate:

1) As religiões devem se preocupar com os mais necessitados? Por quê?
2) O que significa, na prática, fazer uma distinção entre desejos e necessidades?
3) Qual é a utopia ou o tipo de sociedade que a minha religião propõe construir?

Rui Antônio de Souza,
da equipe do jornal Mundo Jovem.
Endereço eletrônico: ruiasouza@ig.com.br

Texto publicado no jornal Mundo Jovem, edição nº 390, setembro de 2008, página 9.


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