Crônicas
Viciado
Sozinho no quarto ele perscruta as sombras que os móveis formam nas paredes, são verdadeiros seres vivos, mais vivos do que ele jamais esteve. Eles dançam, adquirem materialidade perante seus olhos, e pronunciam sugestões insólitas na língua que só os viciados entendem. Ele responde.
O abajur ilumina tudo muito debilmente, e a luz branda torna todos os objetos romanticamente surreais. Sua mão quase pode tocar os pensamentos que escapam desvairadamente de sua consciência fragmentada. Eles choram.
O ar vai se tornando áspero, ao mesmo tempo sufocante e instigante. Ele quer mais, ele quer muito mais. A matéria pesada perpassa seus pulmões como ácido flamejante e traz leveza como um potente sonífero.
Mas ele não tem sono. Não. Os movimentos acontecem como quadros de um requintado filme em câmera lenta e em preto e branco. A ação é febril e frenética, mas é também estática e inerte.
Seus músculos retesam-se, lutam para se libertar do frágil corpo que insiste em prendê-los, e agora ele tem asas, asas que o levam ao céu, e cujo peso o arrasta ao inferno sem piedade do frágil coração que ainda bate fraco e humilde.
Mais uma vez ele empunha seu instrumento delicado e mortal, prepara-se para a derradeira dose. Sabe que não deve, mas que não há escolha. O universo transpira ansiedade, e ele incompletude. O fim está próximo, uma parte de si será arrancada, ele no fundo pressente isso, mas não teme, anseia.
A picada é precisa. O líquido venenoso que rasga sua alma penetra pela última vez na pele lisa e branca, então tudo fica claro. A luz brilha mais forte, é o fim, mas ele sabe que nunca acaba.
O poeta tem diante de si a poesia, e o papel traz as marcas do sofrimento gravadas com o gélido sangue negro da tinta. Belas e cruéis, assim são as palavras.
Resta só o vazio, e a vontade inebriante de mais, sempre mais.
Rafael Pereira de Sousa,Poso Alegre - MG - por correio eletrônico
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