Crônicas
"...Se não fosse o triste do doping, tudo poderia ter sido diferente"
A caminho de casa, tarde da noite, ia passando pelas ruas escuras do bairro onde moro, com a minha simplicidade, que sempre me acompanhava por onde ia. Como de costume, entro num botequim para tomar uma xícara de café ler um jornal, eu me sento numa velha mesinha recuada das demais, iluminada apenas por um antigo castiçal e repleta de marcas deixadas pelos cupins. Enquanto via as horas passarem lentamente, lia com atenção o jornal fresquinho comprado na banca poucas horas antes, ele trazia na capa uma grande reportagem sobre a história das Olimpíadas. Como bom atleta que sou, ou melhor, que era, conhecia tudo sobre o assunto, tudo pelos mínimos detalhes, desde seu início, até a versão globalizada, como se vê atualmente.
Eu vivi muitos anos como atleta e participei de diversas competições, inclusive Olimpíadas; saltava a metros de distância, tudo graças as minhas longas pernas, que foram por muito tempo minhas fiéis escudeiras, com a ajuda delas ganhava uma nota preta. Os tempos dantes remotos se tornavam cada vez mais presentes, pois as lembranças do passado, escondidas debaixo do tapete, numa tentativa desesperada de esquecimento, vinham agora me perturbar novamente.
Horas mais tarde, três rapazes robustos e de boa aparência, acomodavam-se junto ao balcão. Depois de alguns minutos, paro com a minha leitura e passo a observá-los mais atentamente, e vejo que me são familiares, só que infelizmente, não me vêm a lembrança. Após muito esforço, consigo me recordar claramente, aqueles homens eram meus velhos amigos, e também atletas, assim como eu. Penso em ir até eles, mas me contenho e decido permanecer quieto no meu lugar.
Continuo a observá-los atentamente. Diferentemente de mim, eles continuavam a competir, era visível a alegria em seus rostos, os próximos jogos Olímpicos seriam mais um dos quais participariam. Um deles se levanta para ir ao banheiro, e vem vindo em minha direção, após analisá-lo melhor, vejo que trazia consigo diversas medalhas, presas ao seu pescoço. Se me lembro bem, ele é um grande nadador e o meu melhor amigo dentre os demais que ali estavam. Ostentava também um sorriso triunfal estampado na cara.
No momento em que ele passa, eu me levanto num pulo para cumprimentá-lo, e relembrarmos do passado sem esquecer-se de pôr o papo em dia. Dou-lhe a mão em cumprimento, ele para, e em seguida, me olha piedosamente, e discretamente, sem que ninguém percebesse, tira umas moedas do bolso, põe em minha mão e me fala num tom quase que silencioso: "Pobre rapaz, tome um dinheirinho... não é muito, mas dá pro café!". E entra no banheiro. Meu Deus, o que havia sido aquilo, o cara que antes era tão meu amigo, me confundiu com um mendigo qualquer, com um rato que mal tem onde cair morto. Sento-me e logo abaixo a cabeça num gesto acanhado de humilhação.
Depois de seu retorno, todos saem da mesma forma altiva que haviam entrado, gozando da vida e dos prazeres que ela oferece. E eu, que antes usufruía as mesmas coisas, agora me via esquecido a viver das migalhas que outros me davam.
"Que vida miserável... Se não fosse o traste do doping, tudo poderia ter sido diferente!"
Alexandre Henrique dos Reis Prado,Candiba - BA - por correio eletrônico
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