Crônicas
Espelho do medo

     Diante de uma batalha diária vamos aprendendo a sobreviver perante a corda bamba que é a vida. Corda, que sustenta os primeiros passos, cujo impulsiona o ato livre de avançar e sentir que ando como se tivesse firme no chão, porém ao dar mais alguns passos sinto-me interrompida. Ao perceber que não há mais terra firme avisto um buraco o mesmo da altura que consigo ver a vida diante de uma linha que agora sustenta os meus pés.

     O medo de cair parece me paralisar, não consigo dar um passo sequer, só penso que vou cair. Não é medo de cair e morrer, e sim de simplesmente chegar ao chão. É tão bom estar no alto na posição que sempre sonhei ocupar. Chego a me sentir livre perto das nuvens, as que sempre criei em meus sonhos, sonhos que se perderam quando eu simplesmente tive medo de avançar.

     Coragem, é o que me falta e ninguém nesse momento pode me dar, pois estou aqui só, em cima da corda, percebo que não é mais o medo de avançar, mas sim o fato de até quando eu me sustentarei aqui. Estou desequilibrando a todo tempo, sinto o chão bem próximo ao meu nariz, desespero, só internamente, não consigo demonstrar um ato sequer.

     Meu corpo parece imóvel. Chego a comparar com o meu casamento, emprego, relacionamento com as pessoas, conta bancária, nada avança, nem meu sonho o qual cheguei a pensar que estava perto de realizar.

     Penso que a solução é mover-me, pois algo precisa avançar em minha vida. Não dá para continuar parada com medo de cair, ao chão logo estarei, chegar do outro lado da corda não será fácil. O desequilíbrio vai me causar certo pânico, mas tenho que ser forte, corajosa, o medo só me paralisa, e não devo ficar intacta diante dele, e sim conhecer os limites que posso romper em meio a ele. A altura é só um fator do quão alto sonhamos e viajamos, esquecendo que não é sobre as nuvens que andamos, mas em terra firme, perante a batalha de sobrevivência, a qual todos passam, cada um à sua maneira, construindo o seu caminho de chegada, com estratégias, principalmente ao que diz respeito à mente, pois é ela que nos mantém em pé, seja perante uma corda ou no chão, que agora meu pés tocam.

     Não caí, pois enfrentei o medo. Avancei o centímetro que faltava para o fim da corda. Ao descer as escadas lembrei de todo tormento que passei e o quanto uma corda inclinada parece com a vida, em seus momentos de ápice e de alicerce em plena construção, daquilo que se diz ser humano e tudo que o constitui.

     Foi esse momento que me fez perceber o quanto as conturbações, os sentimentos parecem ocupar o lugar de nossas vidas, sendo personagem principal entre as aflições e autoestima, em fases que parecem nunca acabar, diante das perdas, desilusões, medo, separações em uma vida frustrada a qual nada parece ser a solução.

     Sentia como se a própria vida tivesse escapado das minhas mãos, ganhado a liberdade de viver sobre os escombros da alma, triste, parada, que tudo assiste e nada faz. Apenas permanece esperando a próxima tragédia, se deixando sufocar pelas desagradáveis surpresas que a vida nos prega em meio ao medo de sair do lugar.

     Em cima da corda, refleti por incansáveis instantes o quanto todos têm problemas e buscam soluções, mas buscam quando descobrem o seu ponto de partida, a causa. Assim partem traçando estratégias, rompendo barreiras, liquidando tudo aquilo que seja empecilho em meio à felicidade ou objetivo.

     Vi que a vida não é só feita de coisas ruins, e que mesmo com elas podemos ter motivos para sorrir, porque a perda, o medo, a fraqueza, o “não” nos dão lições de vida. Com suas pausas já predestinadas para chegar ou nos impedir de chegar onde queremos, mas talvez não seja o nosso lugar. Em alguns momentos fazemos isso com nossas decisões pensadas e impensadas, mudando o percurso da chegada, o qual nos permite sentar, descansar ou correr cada vez mais. O que modifica o percurso é a dosagem de mente, corpo, vontade e persistência perante uma corda, chão, sentimento ou a tragédia que parece não nos dar motivos para avançar, mas em meio a significados atribuídos percebemos o quanto o “não”, ao demolir certos sonhos com os tais empecilhos, fazem a grande a diferença em nossas vida.

     O medo de não ter medo, é o que me dá medo.


Jacqueline Nogueira Cerqueira,
Sapeaçu - BA - por correio eletrônico
Endereço eletrônico: jacqueline-nogueira@hotmail.com

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