Crônicas
Era uma vez...

     O desejo de verdade aparece na vida humana tão cedo quanto a necessidade de simbolizar, fantasiar e representar por meio da magia e da arte. É, aliás, por isso que o surgimento da filosofia (reflexão racional crítica e rigorosa) mantém íntima relação com os mitos e as artes que lhe precederam.

     Entretanto, ao longo dos anos, a mitologia, as fábulas e os contos de fadas foram, paulatinamente, sendo classificados como discursos inferiores em relação à linguagem racional e científica. E é exatamente por esse motivo que, no mundo ocidental, a verdade é um valor e a ignorância, tão execrada quanto a mentira e a falsidade. E, como conseqüência, os contos de fadas passam a ter status de “mentirinha para crianças”; como se não tivessem nenhuma conexão com o real e a construção da verdade.

     Mas, ao contrário do que nos diz o senso comum, o faz de conta não é, em nenhuma hipótese, um discurso mentiroso; e contribui, significativamente, para com a constituição daquilo que convencionamos chamar de realidade. É, pois, neste sentido, tão importante quanto os discursos da filosofia e das demais ciências.

     Na infância, por exemplo, fase em que a diferença entre o faz de conta e a realidade é muito tênue, estamos amiúde atentos para distinguir entre o “de mentirinha” e a mentira propriamente dita.

     O faz de conta, a brincadeira, o jogo e a magia são atitudes essencialmente criativas e, destarte, criadoras de outro mundo bem mais rico em sonhos e potencialidades.

     E é justamente por isso que a criança é, em geral, amplamente sensível às mentiras que os adultos contam. Estas, sim, magoam, ferem, quebram as relações de confiança e segurança. A criança não se decepciona com o era uma vez. Ela se desencanta quando descobre que foi enganada. Decepciona-se com a falsidade, o engodo e a subestimação.

     E guardando as devidas proporções, é também isso que acontece com os adultos. O faz de conta também nos emociona. Enquanto a mentira, por seu turno, desacredita e magoa a quem quer que seja. Sentimos prazer diante de uma obra de arte, de uma bela música, uma peça de teatro ou um filme. Mas em face de uma mentira, “perdemos o chão”. Nosso mundo “desaba” quando descobrimos que fomos enganados ou traídos.

     O “faz de conta” é criativo. A mentira é corrosiva. O era uma vez estimula a imaginação e nos leva a um mundo extraordinariamente belo, rico e fecundo. A mentira nos rouba a magia e a beleza que restam deste mundo que denominamos realidade.

Um brinde aos contos de fadas!
“Quem não tiver um coração de criança,
não entrará no Reino dos Céus”
(Mc, 10,15)


Mauro Sérgio Santos,
Araguari - MG - por correio eletrônico

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