Crônicas
A Recompensa do Gaúcho

Começava a amanhecer no meu rincão,
Pensava, ao tomar mais um mate,
Que se aproximava mais um Natal.
E que eu, um gaúcho preocupado em agradar aos meus,
Queria fazer algo diferente neste ano.

O que eu poderia fazer, já que fizera de tudo nesta vida baguala,
Trabalhara de sol a sol, conversara com o patrão maior que tudo criou,
Ao meu jeito, dias agradecendo, dias pedindo, dias xingando.
Muito mais agradecendo, confesso.
Já que ele tinha me dado de tudo. Saúde nesta sábia velhice,
Piás brincando, frutos do que foi plantado outrora, algum dinheiro,
para que os mais novos não venham a passar tanto trabalho, como passei...
Alegria, mesmo com coisas sem graça, como a pobreza, a política, a violência...
E o mais importante, a necessidade de ser um homem bom.

Mas, pensava então, como fazer um Natal diferente dos outros...
Carne, comida e bebida na noite natalina eu sei que teria,
Minha família reunida, mesmo pedindo confirmação três meses antes,
Sei que também teria,
Mas o “diacho” de Natal diferente não me saída da ideia.

Terminei meu mate e segui na lida sem saber como fazer um natal diferente.
Mas, faltando poucos dias para a data festiva,
Estava eu fazendo algumas compras na cidade,
Numa loja bonita e cara, levando lembranças para os meus.
Eis que uns moços com meias na cabeça, dois se bem me lembro,
Entraram na loja anunciando um assalto.
- Todos quietos ou então vão levar bala, disseram,
Pensei, mais parece um pega-rabo nos tempos que eu ia às carreiras,
Mas o troço era mais sério, e tiros foram ouvidos...

Dois feridos e um jovem morto.
Comigo nada aconteceu, me entregaram as compras, dei depoimento na delegacia e
Fui pra casa pensando. Eu queria um Natal diferente e o patrão maior acabara de me salvar.
Agradeci mais fervorosamente ainda, - não era a hora deste gaúcho, desabafei...
E o natal chegou, na festa todos queriam que eu contasse o acontecido na loja,
Se eu tinha visto o rosto dos jovens assaltantes, perguntavam.
Contei garboso o fato... comemos, brindamos, sorrimos e a noite natalina realmente foi...
Igual, para esse velho gaúcho, mas, diferente para quem perdeu aquele jovem,
Diferente para quem teve feridos no assalto,
Igual para quem olha esse atual mundo, com olhar de tudo normal, de tudo igual, tudo culpa da violência,
tudo culpa dos tempos modernos...
Ainda mais igual para esse gaúcho que todos os dias sempre e somente pensou nos seus...

Mas, resolvi, antes do ano novo, fazer algo diferente
Então, deixei de matear despreocupado como se comigo nada acontecesse,
e fui à luta
Como bom gaúcho que sou...
E quieto no mais,
me doei por alguns dias para levar aos necessitados de minhas redondezas
Que não são poucos, alguma alegria,
senão no natal, pelo menos no ano novo que se aproxima.

Depois de tudo passado,
recebi um dos maiores presentes que um gaudério pode receber...
O sorriso e a gratidão de uma criança que pela primeira vez tinha conseguido um ano novo diferente.


Rosinei Barros,
por correio eletrônico
Endereço eletrônico: rosineibarros@bol.com.br


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