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Revolução Xiita e a contradição norte-americana

     No Irã, no final da década de 1970, uma incontestável revolução de massas instituiu uma república islâmica e reintroduziu modos de vida conservadores para os parâmetros ocidentais. Este foi o início da ascensão política do fundamentalismo islâmico radical, que se tornou o principal tema da pauta da geopolítica internacional no início do século 21.

     A peculiar história do Irã ajuda a compreender por que foi palco desta singular revolução. O país foi um dos poucos territórios de população majoritária muçulmana que conseguiu manter a autonomia política, durante o fim do século 19. Também estabeleceu, no início do século 20, uma relativa institucionalidade política constitucional, envolvendo parte significativa da população.

     Durante a Guerra Fria, nos anos de 1950 e 1960, o Oriente Médio tornou-se uma região estratégica no cenário geopolítico e, nesse contexto, o Irã aliou-se aos Estados Unidos, tornando-se um importante agente do capitalismo naquela região. A monarquia iraniana, deslumbrada com o prestígio político desfrutado no ocidente e enriquecida com a exportação de petróleo, implementou fortes processos de ocidentalização cultural e passou a ostentar despudoradamente a sua riqueza num país de população pobre.

     A oposição ao regime foi hegemonizada pelos fundamentalistas xiitas que, em 1979, amparados por ampla mobilização social, radicalizaram as suas posições ideológicas, derrubaram a monarquia, instituíram a república islâmica e estruturaram a sociedade e o estado com bases teocráticas conservadoras. O destaque foi a obrigação de as mulheres permanecerem em posição de submissão aos homens e tendo, entre outras, a determinação de cobrir todo o corpo com o shador.

Contra-ataque americano

     A vitória da revolução xiita no Irã foi uma derrota política dos Estados Unidos que, em represália, financiaram o ataque militar do Iraque ao Irã. As ameaças estadunidenses, ao contrário do esperado, reforçaram o regime xiita, que foi radicalizando a sua ideologia, expressando oposição ao modo de vida ocidental e, em particular, cultivando o ódio aos Estados Unidos. A revolução passou a convocar as populações islâmicas à Guerra Santa contra os infiéis ocidentais e cristãos.

     Os Estados Unidos, nos anos de 1980, tentaram conter a expansão da revolução xiita, fortalecendo movimentos sunitas nos países vizinhos. Apoiaram o corrupto governo ditatorial de Sadam Hussein no Iraque e a guerrilha sunita fundamentalista do Taleban, no Afeganistão, que lutava contra a ocupação soviética Estes dois agentes políticos nos anos 1990 voltaram-se contra os próprios Estados Unidos e suas consequências manifestam-se até hoje.

O “modelo” iraniano

     Após a revolução iraniana, o seu modelo político encontrou significativos seguidores no Líbano e no Iêmen, países com grande população xiita. A revolução também serviu de modelo para o fundamentalismo sunita, que igualmente radicalizou as suas posições e aderiu à convocação da guerra santa contra os Estados Unidos, liderados por Osama Bin Laden e a organização Al-Qaeda.

     O cenário geopolítico internacional atual é fortemente influenciado pelos processos abertos pela revolução xiita, quais sejam:

a) a Europa e os Estados Unidos são vulneráveis a ataques terroristas de proporções crescentes;
b) a influência de grupos radicais está em expansão no mundo islâmico no sul da Ásia (inclusive nas ex-repúblicas soviéticas do Cáucaso e na minoria muçulmana uigure, na China), no Kosovo (na península Balcânica) e no norte da África;
c) o crescimento do fundamentalismo islâmico radicalizado na Palestina ocupada está acirrando o conflito com Israel;
d) a resistência à ocupação militar do Afeganistão e do Iraque é liderada por grupos fundamentalistas radicais islâmicos;
e) a ampliação do domínio das tecnologias de armas nucleares pelo Irã reacende as ameaças de guerra nuclear.

     O conflito entre os EUA e o fundamentalismo radical islâmico parece atender a dois interesses: o primeiro faz da ameaça norte-americana o seu combustível mobilizador; e os EUA fazem do crescimento do radicalismo islâmico a sua justificativa para manter os gastos militares.


Sugestão de Filme:

Instante de inocência (1996). Direção de Mohsen Makhmalbaf. 78 min. Em Teerã, jovem que milita contra o regime iraniano fere um policial e é preso. Vinte anos mais tarde, ele é um cineasta renomado e o policial o procura, pedindo um papel em seu próximo filme. O cineasta decide reconstituir os eventos que ligaram os dois no passado, fazendo novas descobertas. Inspirado em fatos reais.
Marcos Cordiolli,
historiador, educador e produtor de cinema, Curitiba, PR.
Twitter: http://twitter.com/marcoscordiolli
Endereço eletrônico: marcos.cordiolli@gmail.com
Artigo publicado na edição nº 402, jornal Mundo Jovem, novembro de 2009, página 8.

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