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Nossa Linguagem Verbal
A linguagem é, de fato, de grande importância para as nossas relações em geral. Relacionamo-nos conosco, com o outro e com o mundo através da linguagem. É através dela que exprimimos pensamentos, sentimentos; é por ela que expressamos nossa capacidade criadora nas artes; é com ela que somos animais políticos; é através dela que damos significação às coisas e a nós próprios. Não há conhecimento intelectual fora da linguagem. Diz-se que onde há algo que não podemos falar sobre, devemos então calar. Tem-se que a linguagem é inseparável do homem. É o principal meio pelo qual conduzimos nossas vidas. Ela, a linguagem, segue-nos em todos os nossos atos, sendo o instrumento modelador do pensar, dos sentir, do interagir. É o instrumento que mais nos influencia, assim como também o é influenciada por nós. A todo tempo estamos modificando-a.
Segundo teorias da linguagem, à pergunta sobre a origem desta dimensão há quatro respostas: ou nasce por imitação dos sons da natureza; ou por imitação de gestos; ou da necessidade humana (fome, sede, proteção); ou nasce das emoções (do grito, do choro, do riso). Essas não são excludentes, mas complementares. Estudos mostram que as crianças valem-se desses quatro modos de expressão para começarem a expressar-se verbalmente.
Pensava-se, até o início do século passado, que a linguagem, através das palavras, designava as coisas imediatamente; que a relação era palavra↔objeto. A essa concepção binária opõe-se uma ternária, na qual as palavras não apenas operam como meios para designação, mas também são elas próprias portadoras de significação: elas criam sentidos, instauram realidades, encarnam significações. A relação é estabelecida por um significante (palavra) que aponta para um significado (conceito), e, depois, designa-se um objeto particular, se for o caso.
Há quatro fatores fundamentais que constituem a linguagem humana: o físico (anatômicos, neurológicos, sensoriais); o sociocultural; o psicológico (emocionais, afetivos, perceptivos, imaginativos, lembranças, inteligência); e o linguístico (estrutura e funcionamento da língua). Sem um desses fatores é impossível ser pensada a linguagem: numa comunidade onde as pessoas têm problemas de ordem anatômico-neurológico-sensoriais, não haveria equilíbrio psicológico, o que impediria o desenvolvimento da habilidade linguística, concluindo, portanto numa comunidade sem fala. Ademais, não há possibilidade de se desenvolver a linguagem de forma individual, isolada: ela é sempre social, “um produto depositado em nosso cérebro” a partir do nascimento.
É comum confundir linguagem com língua, e língua com fala. Um modo representacional para trazer o lugar de cada uma na realidade é pensar do seguinte modo: a linguagem verbal (específica faculdade humana) é o resultado da língua (sistema de sistemas regrados) e da fala (uso concreto e sempre particular daquele sistema). É análogo ao que é a arte musical: tem-se uma música concreta e singular (pensamos em Jingle bells de Frank Sinatra, e.g.) que segue algumas regras de composição e limites de uso das possibilidades (sistema musical de escalas, harmonia, composição etc.) e essas duas coisas levam a termos uma ideia daquela faculdade de expressão artística (a Música). A faculdade de linguagem humana é a que possibilita a existência de línguas particulares e é somente a partir dessas que são possíveis as interações verbais (falas) também particulares.
Em relação à fala, tem-se a noção de enunciação, que é o ato de expressar-se vocalicamente ou através da escrita, e a de enunciado, resultado daquele ato enunciativo. Do mesmo modo que cada sentença tem seu referente referido por si, o enunciado tem, como um todo, seu tema. Como todo o ato de enunciação é realizado por pessoas reais em situações reais (salvo animações), sempre o enunciador – isto é: nós utentes da língua – mostrará sua atitude frente ao que enuncia, ou por entonação, ou por advérbios extrafrásicos, ou pela frequência com que o faz, isso porque somos, o tempo todo, seres avaliadores daquilo que nos cerca assim como daquilo que realizamos. Ainda sobre a fala, é sabido que ela é feita sempre visando um determinado fim (efeito etc.), sempre endereçada a um mais ou menos determinado ouvinte, leitor – tecnicamente, a um destinatário.
Nos estudos sobre este tema encontraram-se vários elementos presentes, mas três deles são básicos: enunciador (falante ou escritor), destinatário (receptor, apesar de diferente, ou ouvinte) e relação entre esses. Há outros componentes que estão presentes nas análises de fala, tais como código, meio, função emotiva, função referencial etc.
Válido é trazer aqui igualmente as fases pelas quais passou a linguística, estudo da linguagem verbal humana. Primeiramente, estudava-se basicamente a palavra. Enquanto signo linguístico, formado por um significante (imagem acústica) e um significado (conceito), esta fase, marco inicial da linguística moderna, predominou por décadas, até surgir um outro período, no qual se destacou os estudos da sentença (ou “a palavra na sua relação sintagmática”). Uma terceira fase é, sem dúvida, a iniciada individualmente por Mikhail Bakhtin: estudos do discurso ou do texto, a qual se ultrapassa as anteriores, na medida em que considera-se que todo ato comunicativo humano é sempre feito numa relação dialógica, em que diversos fatores estão incluídos, os quais, por sua vez, podem e devem ser levados em conta nos estudos da comunicação (função básica, mas não exclusiva, da linguagem).
Enquanto esta terceira fase é iniciada por M. Bakhtin, já na segunda década do século XX (mas apenas realizada no mundo ocidental décadas mais tarde), a segunda fase, a da sentença, foi batizada pelos trabalhos do linguista estadunidense Noam Chomsky (década de 1960), sendo conhecida como estudos gerativistas (ou estruturalismo americano). Já a primeira é marcada pela publicação d’O curso de linguística geral, de Ferdinand de Saussure, em 1916, fase conhecida como estruturalismo europeu.
Por fim, toda ação humana é intrinsecamente uma intervenção no mundo. Elas, as ações, sempre apontam para um lado e, ao fazerem isso, deixam outro a ver. A linguagem verbal humana é interventiva: podemos usá-la para acalmar ou irritar alguém; para agradar ou magoar; para pedir ou mandar. Não a usamos apenas para dizer as coisas mas também para criar aquilo que dizemos. Assim faz o sacerdote quando celebra um matrimônio (“Vos declaro marido e mulher”) ou o policial que dá a ordem de prisão – essas falas criam/realizam aquilo que dizem. Sua natureza é intrinsecamente ideológica: quando a usamos, intervimos no mundo e essa intervenção aponta para aquilo que queremos; aquilo que queremos é resultado de um conjunto de fatores que nos influencia determinantemente. Pela linguagem mostramos mais claramente o resultado a que cada um de nós chega pelos inputs recebidos desde a infância. O uso da linguagem, através de uma língua – concretizada numa fala –, é sempre ideológico.
Esta ideologicidade do uso da língua vem à vista mais claramente quando assistimos a um dado debate entre candidatos a cargo público (pensamos nos debates presidenciais, e.g.). Ao falarem da suposta “mesma realidade das estradas e portos do país”, cada candidato, oposto no espectro político-social, diz (ou pode dizer) coisas totalmente diferentes entre si. Isto porque o objeto a partir do qual se fala aí não é trazido em si, mas é representado através da linguagem; e essa representação é resultado das escolhas, das inclinações, etc., de cada falante. Devido a tal fato, fica errôneo dizer “de uma mesma realidade”, ou “de um mesmo objeto”, pois esses são reconstruídos a cada vez que se fala sobre eles, e essa pressupõe a pluralidade de objetos, realidades, visões de mundo; isso volta afirmar que a linguagem (o seu uso) cria aquilo de que diz.
Isaque Gomes Corrêa,estudante de Letras, militante pela Pastoral da Juventude Estudantil.
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