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Eu, bem-te-vi
Estava no quintal da minha casa observando os pássaros brincarem, senti uma dose grande de inveja perseguir minhas cruéis lembranças, é que os pássaros estavam livres. Comecei a pensar sobre educação, fui surpreendido por uma visita, Paulo Freire me olhava de lado, na capa do livro: Paulo Freire; Vida e obra, que estava em cima de uma cadeira no quintal, ele parecia querer falar comigo, sua face estava escura, seu olhar me incomodava, ele estava tentando falar algo, e falou: “alguém tem que continuar a luta...” fiquei lembrando da educação, lembrando das contradições, parei de pensar e saciei minha curiosidade de folhear o livro, uma citação de Freire, do livro PEDAGOGIA DO OPRIMIDO Chamou minha atenção:
“A existência humana não pode ser muda, silenciosa, nem tampouco pode nutrir-se de (verdades absolutas). Existir, humanamente, é pronunciar o mundo, é modificá-lo. O mundo pronunciado, por sua vez, se volta problematizado aos sujeitos pronunciantes, a exigir deles novo pronunciar”.
“Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão”. (FREIRE, P. 78).
Após ler essa passagem, fiquei a lembrar das discussões didáticas, dos vieses teórico-metodológicos, dos faz-de-conta, das não sei quantas juras de amor à educação que dizemos desejar. Por fim, acabei estancado em um dilema: somos ou não somos construtores de nossa história?
Sonhamos com uma história feita por nós mesmos, com um mundo menos mudo, menos do EU. Mas o que temos feito para mudar o processo mantenedor desta ordem que aleija e/ou mutila sentimentos, desejos, sonhos, vidas e almas?
Pode-se comentar que o texto é fruto de frustração. Dirá a verdade quem disser indignação! Como é possível, tendo olhos tão abertos, não enxergar o quão urgente se faz o erguer os “punhos” e ir a luta contra tantas iniquidades e opressões contra o nosso povo. Nós falamos tanto em mudanças nas discussões didáticas! E ainda assim permaneceremos submetidos a isso? Digo isso porque não consigo denominador mais interessante, isso é isso... Nós continuaremos concordando?
Estamos acostumados à opressão, desde pequenos nos foi ensinado assim, menino (a) isso, menino (a) aquilo. Chegou à hora de ser fênix, aí eu vou evocar Nietzsche: “Você tem que estar preparado para se queimar em sua própria chama. Como se renovar sem primeiro se tornar cinzas?”. É este medo de nos tornarmos cinza que nos impede de renascer, sejamos corajosos (as), a hora da vitória não vem sem o badalar da luta.
Desço do processo de congelamento de pensamentos e observo os bem-te-vis que continuam na laranjeira, um deles arreganha as asas, sobe e desce numa sincronia perfeita, um raio de sol brota do passear duma nuvem, o brilho forte do raio escurece os meus olhos, o sol me lembra esperança, seguro uma outra página, leio em PEDAGOGIA DA INDIGNAÇÃO:
“Mais que escrever e ler que a asa é da ave – Paulo Freire que me permita parafrasear esta parte e trocar alfabetizandos por educadores – os educadores necessitam perceber a necessidade de um outro aprendizado: o de ‘escrever’ a sua vida, o de ‘ler’ a sua realidade, o que não será possível se não tomam a história nas mãos para, fazendo-a, por ela serem feitos e refeitos”. (FREIRE, 1982).
Diante da passividade e da apatia de determinados sujeitos, fica a lástima, a lástima de que estão cumprindo o desejado, e os de cima sorriem, abrem suas gaiolas e aprisionam os pássaros, que ao contrário dos bem-te-vis que estou a observar, jamais serão livres, jamais usarão as asas, jamais entoarão um canto de alegria, e viverão sempre a lamentar, a reclamar, mas será crepúsculo. Paulo Freire me olha novamente, dessa vez eu respondo: EU BEM TE VI.
Herisvaldo Guimarães de Oliveira,Diretor do Colégio Municipal Aurelino José de Oliveira
Distrito de Pilões – Candiba – BA.
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