Artigos
Cotidiano e lugar: A relevância da consciência espacial

     Convivemos diariamente com pessoas e objetos em diferentes paisagens. No local onde residimos, nas áreas circunvizinhas, nos espaços públicos e no local de trabalho, interagimos em um espaço que se revela de modo particular para cada um de nós, sob a forma de cotidiano e de lugar. Estar ciente da concretude, da realidade e da atualidade, desses espaços de proximidade, é fundamental para desencadear um movimento à cidadania. Nessa perspectiva, esse texto é um convite a pensar sobre o espaço no qual temos o poder de ação e sobre o mundo como conjunto amalgamado de cotidianos e lugares numa discussão sobre suas possibilidades e limitações.

     O espaço geográfico está presente concreta e inquestionavelmente na vida diária de todas as pessoas no âmbito individual e coletivo. Por isso, é merecedor dessa análise sobre as categorias espaçais: cotidiano e lugar. São instâncias com as quais todos os sujeitos interagem, influenciando e sendo influenciados.

     Para pensar sobre a categoria cotidiano, Certeau (2005), nos auxilia ao conceituar que “é aquilo que nos é dado a cada dia (ou que nos cabe em partilha), nos pressiona dia após dia (...). Todo dia pela manhã, aquilo que assumimos ao despertar (...) é o peso da vida (...) é aquilo que nos prende intimamente, a partir do interior”(p. 31). Os objetos e as suas disposições, os movimentos e as expressões em nossa casa e na rua são indicativos, muitas vezes inconscientes das concepções e ações nossas e dos grupos aos quais pertencemos, nas vivências cotidianas.

     O lugar, por sua vez, supõe outra percepção para além do cotidiano. Acrescenta o sentimento de pertencimento. Significa que é no cotidiano que o sujeito convive e com o qual se identifica. Para Callai (2003), reconhecer e estudar o lugar que nos dá a identidade nos permite reconhecer o nosso pertencimento para se reconhecer como cidadão de um determinado lugar e que faz parte de um mundo maior. Também oportuniza aprender a fazer a leitura e a análise do espaço construindo para si uma metodologia capaz de estudar espaços mais amplos, mais distantes fisicamente.(p. 62). O cotidiano pode ser apreendido como lugar, uma vez que as vivências em geral, sejam acrescidas do sentimento de identificação com aquela paisagem com a qual se interage.

     É importante ter ciência dessa espacialidade e percebê-la nessa escala local. Também é relevante realizar um exercício de abstração e descolamento desse palpável/visualizável para a compreensão dos espaços, que são constituídos de lugares e cotidianos das outras pessoas e grupos. Esses conjuntos é que compõem a realidade em escala regional e global.

     O mundo globalizado existe apenas como o somatório das paisagens dos lugares e cotidianos construídos pelos sujeitos de cada local. As manifestações pontuais e singulares dos locais dos sujeitos, precisam dos conhecimentos e conceitos para serem reconhecidos e até mesmo valorizados. Milton Santos (2201) assinala que “os lugares, são, pois, o mundo, que eles reproduzem de modos específicos, individuais, diversos. Eles são singulares, mas são também globais, manifestações da totalidade-mundo, da qual são formas particulares”(p.112).

     É claro que a proposição de entendimento do que é real nos cotidianos e lugares é muito mais do que pode ser dito, pensado, mapeado ou escrito. Mas, como somos constituídos pelo que dizemos como humanos desse real, é importante olharmos a partir de alguma instância que nos sirva de referência para termos uma ancora (que nos oriente, porém, sem nos prender) para empreender caminhadas na vida. A partir dessa escala local e de seus significantes, que têm sentido e que permitem o exercício cidadão, é que podemos ampliar a análise evitando o atrofiamento ao local.

     Para fugir do indiferentismo, tendo ciência do espaço geográfico vale lembrar que, nesse exercício de abstração, as representações que construímos sobre o nosso e sobre os outros espaços do país e do mundo, são instrumentos importantes.

     Nos encontramos mais uma vez com a força da educação escolar, especialmente na área da Geografia, que tem no espaço seu objeto de estudos e, nos mapas, um potencial recurso desencadeador de análises do cotidiano, do lugar e do mundo. Talvez essa metodologia dialética acessível aos professores e estudantes, desde que atente ao risco da limitação ao local que poderia redundar num ostracismo alienante, possa servir como possibilidade das análises em escala na construção da consciência espacial cidadã.


Referências:

RCALLAI, Helena Copetti. Do ensinar Geografia ao produzir o pensamento geográfico. In: Um pouco do mundo cabe nas mãos: Geografizando em educação o local e o global. REGO, Nelson, AIGNER, Carlos, PIRES, Cláudia, LINDAU, Heloísa (orgs.). Porto Alegre:Editora da UFRGS, 2003, p. 57-73.

CERTEAU, Michel de, GIARD, Luce, MAYOL, Pierre. A Invenção do Cotidiano, Morar e Cozinhar. Petrópolis: Vozes, 2005.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: Do pensamento único a consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001.

Adriana Maria Andreis,
Educadora no Ensino Médio e Superior em Santo Ângelo/RS.
Endereço eletrônico: adrianandreis@hotmail.com

::: Voltar :::

Envie sua Contribuição
clique aqui

Artigos
Crônicas
Mensagens
Página do Leitor
Poesias


Um jornal de ideias:
Conheça o Mundo Jovem